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O que faz falta

É isto um médico de família. Não um guichê para pedidos de credenciais, atestados e receitas de medicamentos.

Sónia Gonçalves Pereira, Médica, investigadora Sónia Gonçalves Pereira, Médica, investigadora
15 de Julho de 2021
em Opinião
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Sónia Gonçalves Pereira, Médica, investigadora
Sónia Gonçalves Pereira, Médica, investigadora15 de Julho de 2021

É animar a malta, diz a canção. Mas será só isso que falta? Diz também a canção que não. Muitas coisas faltam. E nos tempos que correm, as mesmas e tantas mais fazem cada vez e ainda mais falta. Alguém se queixou que perdeu o médico de família, “foi para a reforma”.

“Já cumpriu o seu dever”, respondeu outro alguém. “É bem verdade”, respondeu o primeiro. “Conhecia-me bem, a mim e à minha família! Chegava lá e às vezes parece que nem era preciso eu falar…”. Sabia pequenos e grandes pormenores, não confidências ou inconfidências, mas factos relevantes desses núcleos familiares, para contribuir para a prevenção de doenças e promover a saúde dessas famílias.

É isto um médico de família. Não um guichê para pedidos de credenciais, atestados e receitas de medicamentos. É muito mais, tão mais do que isso. É o agente integrador do estado geral da nossa saúde, nossa e da nossa família que, em conjunto com uma equipa de enfermagem também dedicada à prevenção da doença e promoção da saúde, contribuem sobremaneira para a saúde individual, familiar e pública das nossas gentes, do nosso país.

Utopia? Talvez. Não porque sejam maus profissionais, mas porque talvez tenham demasiadas famílias a cargo e demasiadas tarefas paralelas que ainda mais tempo lhes roubam. E energia. Que lhes faz falta para o que devem fazer primordialmente, ser médicos e enfermeiros de família. E porquê? Porque são poucos, muito poucos. Já eram poucos antes, agora são ainda menos. Não em número, mas em funções, crescentes e desgastantes.

Foram todos recentemente chamados a um esforço enorme, a acrescentar às suas azáfamas quotidianas de listas gigantes de utentes, e aos quais não puderam responder adequadamente no último ano. São agora o cerne concretizador do plano de vacinação em massa que está em curso. E ainda bem. Mas são poucos, muito poucos.

Pude recentemente apreciar o elevado profissionalismo destas equipas. A relação salutar com os utentes e com os colegas. A disponibilidade tranquila para as pequenas e grandes funções que lhes competem. Mas notei-os a todos cansados, muito cansados, para não dizer desgastados.

Percebi, melhor, o que se passa neste esforço que lhes é pedido. De tanta hora extra de trabalho, por força de um bem maior, essencial para a saúde pública e retorno a um mundo mais normal. Legítimo, mais que legítimo.

O bem comum é maior que o bem individual. Mas o indivíduo também cansa, frustra, deprime. E no meio de tanta exigência, e consequente resiliência, que se espera e se pede a estes heróis da linha da frente, devemos também ponderar o que podemos dar em troca, para este bem maior a que todos temos obrigação de responder, e corresponder.

Por tudo isto, o que faz falta é muito mais do que animar, avisar, acordar, empurrar, libertar ou dar poder à malta, como diz a canção.

O que faz falta é respeitarmo-nos mutuamente. Cada um cumprir o seu papel, respeitar as suas exigências, e sermos, verdadeiramente, agentes de saúde pública.

Texto escrito segundo as regras do Acordo Ortográfico de 1990

Tópicos: opiniãoSónia Pereira
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