
A bicicleta é maldita e gozada em Portugal. De forma geral, é encarada com condescendência, uma coisa para miúdos ou pessoas pobres. Qualquer coisa que dê a ideia de que não se tem dinheiro, é automaticamente descartado. Por isso o carro se tornou, a partir dos anos 90, o epíteto máximo da superação do trauma da pobreza salazarenta. Compreendo.
Mas há que superar a superação da pobreza. A par da presença ubíqua de transportes públicos, não há nada mais revelador de uma cidade rica, dinâmica, despoluída e acolhedora, que ter condições para andar nela de bicicleta. E não só a passear. Falo em fazer a vida de bicicleta. Ir às compras de bicicleta? É possível! Chegar ao trabalho seco em dia de chuva? Muito possível! Levar os miúdos à escola? Possível e extremamente divertido! É melhor em terreno plano? É!
Mas, graças à inteligência humana, até para essas dificuldades já se encontraram as soluções eléctricas e, mesmo assim, continuam a ser um veículo largamente mais barato que um carro. Não paga impostos anuais, não precisa de ir à inspecção, tem peças e manutenções bem mais em conta, e – o melhor de tudo – não é movida a combustíveis fósseis.
Permitenos manter minimamente ativos e apreciar o caminho que fazemos todos os dias de uma forma muito mais consciente, sem a neura do carro.
Ando de bicicleta em Leiria há mais de 6 anos e posso dizer-vos que, com todos os desafios que o Concelho ainda apresenta, é, de longe, a melhor forma de andar por aí. Claro que trago este assunto à baila por causa da consulta pública ao Plano de Mobilidade Urbana Sustentável de Leiria (PMUS) que agitou o verão leiriense.
Sobre o documento que traçará as linhas definidoras de um novo modo de andar e viver no Concelho de Leiria, muitas coisas haverá a melhorar. Muitas! Mas aproveitemos a oportunidade para parar de entrar em pânico cada vez que se quer rever a supremacia do carro, e foquemos em exigir que as medidas implementadas sejam realmente criadoras de condições materiais concretas de acesso a transportes públicos e vias cicláveis de qualidade.
Não o que temos agora, que é francamente pouco, mas algo digno de uma cidade europeia moderna, bem ligada entre si e as suas freguesias. É claro que o carro continuará a ser uma peça útil, em alguns casos essencial. Mas acreditem: não é nem a melhor nem a única forma de chegar a sítios.










