À primeira vista, a pergunta “quantos desportos cabem no Parque do Avião?” parece de simples resposta.
Bastaria contar, mas o cálculo ficaria sempre incompleto. A panóplia de desportos e actividade física que ali acontecem depende da criatividade de quem utiliza o parque, o coração verde da cidade de Leiria que embrulha a natureza e a urbanidade através de um estilo de vida mais saudável.
Frequentado todos os dias, é ao fim-de-semana que o Parque do Avião ganha mais vida. No último domingo de manhã, havia corrida, caminhada, ciclismo, futebol, basquetebol, treino funcional, skate, trotinete e patins, distribuídos pelos vários espaços num dos locais mais emblemático do percurso Polis.
Ladeado pelo rio Lis e pela rua Comissão de Iniciativa, o Parque do Avião ainda carece do elemento que lhe dá o nome – a tempestade obrigou à retirada do Beechcraft C-45 Expeditor, que sofreu danos severos e aguarda uma revitalização – que não impede o usufruto do local.
São cerca de 10 horas e, aos mais madrugadores, juntam-se aqueles que também não dispensam uma dose de actividade física matinal, embora mais tarde, ou as famílias que encontram no parque infantil o lugar certo para começar a gastar energia logo pela manhã.
Os campos de futebol e basquetebol ainda estão vazios, o momento ideal para umas brincadeiras entre família, antes da chegada dos grupos que, habitualmente, costumam ocupar as quatro linhas.
Foi o caso de Solimar Batista, que com a família jogou futebol e praticou exercício físico. “Normalmente, costumo fazer aqui corridas matinais. Está tudo muito perto: o parque para as crianças mais pequenas, o futebol, um café se as pessoas se quiserem sentar para beber um café”, constatou, após alguns minutos de diversão.
Natural da Venezuela e a residir em Leiria há 26 anos, enaltece ainda a proximidade a serviços como o supermercado ou a farmácia. “É uma zona bem situada e está tudo bem arranjadinho. Sentimo-nos seguros”, afiança.
À primeira hora, é o parque infantil que regista maior afluência, mas à medida que a manhã avança, todos os espaços vão sendo ocupados. Com o Inverno a aproximar-se, estes são os últimos dias onde o bom tempo ainda é certo, mas as cores já se vêem a mudar.
O verde dá lugar ao amarelo, ao vermelho e ao castanho a um ritmo acompanhado pelas centenas de corredores que fazem do Parque do Avião parte do seu trajecto. Sejam amadores ou profissionais, a maior ou menor velocidade, sozinhos ou em grupo.
Há quase 20 anos a caminhar no Polis
Numa comunhão multicultural e multigeracional, também as caminhadas ganham força às primeiras horas de domingo. Afinal, o percurso Polis está prestes a assinalar as duas décadas de inauguração e há quem o utilize desde então.
É o caso de Miguel Silva e Isabel Soares que usufruem, do início, daquele trajecto, tanto ao fim-de-semana como durante a semana. “Gostamos. Estamos entre carros, à beira-rio. A caminhada é bonita, estamos no meio da natureza e ao pé do rio. Vemos as outras pessoas em actividade, o que também motiva a nossa”, refere o casal, que enaltece a vantagem de não terem de fazer “não sei quantos quilómetros para andar num parque destes”.
A residir no centro de Leiria, apenas a chuva os impede de sair para caminhar. “O frio aguentamos, mas a chuva não. Só se nos apanhar a meio do percurso desprevenidos”, contam.
Mas, não é por isso que o exercício físico fica por fazer. “No Inverno, temos uma bicicleta em casa para andar [risos]”. Na zona dedicada aos skates, são as famílias que mais preenchem as rampas pela manhã. Nelas, as crianças aprendem a dar as primeiras pedaladas nas bicicletas, a andar de patins ou de skate, sempre com a supervisão dos familiares.
Ângela Borges e Filipe Santos têm o hábito de levar os dois filhos. “Damos um passeio, caminhamos um bocadinho e eles apanham ar. Ainda está bom tempo e eles gastam energia”, confessa a mãe, que considera “muito importante” a existência de parques semelhantes nas cidades.
O pai tem a mesma opinião, ainda que acredite que “há espaços mal aproveitados em Leiria” e que a cidade continua a carecer de parques com este dinamismo.
No campo de basquetebol, remodelado em 2025, podem agora estar quatro grupos em simultâneo a jogar. À primeira vista, tudo parece apto, não fosse a diferença de altura de uma das tabelas de basquetebol que, segundo um dos utilizadores, está cerca de 15 centímetros mais alta que o normal.
Uma condicionante que não impede o grupo de cinco de se divertir, enquanto um outro casal também usufrui do campo.
Comunidade imigrante junta-se ao redor do futebol
Entre as 11 e as 12 horas, nota-se um aumento do movimento. Neste que é, oficialmente, o Parque Municipal Tenente Coronel Jaime Filipe da Fonseca, começam, finalmente, a juntar-se todos os craques que dedicam tempo ao desporto-rei.
Naquela manhã, estiveram cerca de 15 jogadores, principalmente angolanos e guineenses, que utilizam o futebol como meio de integração numa cidade que, em tempos, foi desconhecida.
Chegaram aos poucos, mas rapidamente constituíram equipas e a bola começou a rolar. Mesmo sem coletes, distinguiam bem os grupos e, a cada dois golos, trocava a equipa que perdia pela que aguardava na pequena bancada.
Ali, garante Alberto Kahosi, todos são bem-vindos. Qualquer pessoa pode entrar no ringue e pedir para jogar, que tranquilamente é integrado. Mais do que a competição, reina o riso fácil e a descontração de um grupo que, ali, tem um ponto de encontro da comunidade.
“Preferimos jogar ao domingo de manhã, que não tem confusão”, explica.
Por vezes, o convívio não se resume apenas ao futebol. Dudas Venâncio conta que, de vez em quando, cada um “traz o seu farnel” e almoçam por ali, prolongando até à tarde a confraternização.
Procuram saber como foi a semana de cada um e se tudo está a correr bem, sendo estes dois angolanos também membros da mais recente associação da comunidade em Leiria, criada para apoiar quem chega à cidade do Lis à procura de melhores oportunidades.
“Há pessoas que estão aqui sozinhas, não têm familiares. Quando chegámos, encontrámos os angolanos cada um por si, cada um no seu cantinho. Houve a necessidade de criarmos uma comunidade, para unirmos a nossa irmandade e tornamo-nos mais próximos uns dos outros”, explicou, enquanto esperava pela próxima oportunidade de entrar em campo.
Dudas Venâncio adianta que, também ali no Parque do Avião, têm aconselhado jovens que chegam a Leiria e podem sentir-se assoberbados com a mudança drástica.
“Portugal é um País com muita oportunidade e muita regra. Nós, que saímos dos nossos países, infelizmente, não tivemos uma educação, uma organização em muitos aspectos. Chegamos aqui e ficamos assustados, não conhecemos os procedimentos”, reconhece, vincando a importância destes encontros para a comunidade imigrante.
Ao longo da tarde e à noite, a vida do Parque do Avião mantém-se. Além da procura pela actividade física, também a cultura leva gente ao espaço e, no Verão, são habituais as sessões de cinema ao ar livre.
Em breve, haverá uma nova requalificação no parque infantil, com a substituição de equipamentos degradados por elementos inspirados no Castelo de Leiria.
Coloca-se a pergunta novamente: quantos desportos cabem no Parque do Avião? Continua por apurar o número exacto, mas fica a certeza de que não há apenas desporto. Nele, cabe vivacidade, superação e o sentimento de pertença.

















