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Home Sociedade

Que homem anda com navalha no bolso? Elementar: um cavalheiro

Carlos Norte dá fogo à cutelaria de autor, e a uma tradição de várias gerações, na oficina Lombo do Ferreiro.

Cláudio Garcia Cláudio Garcia
28 de Fevereiro de 2019
em Sociedade
Que homem anda com navalha no bolso? Elementar: um cavalheiro
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Carlos Norte acredita que a classe da navalha define o cavalheiro, como no tempo em que nenhum homem saía de casa sem lenço e canivete no bolso. A história do canivete português, conta ao JORNAL DE LEIRIA, é também a história de quem lhe deu uso: o escrivão, na lapela, com mecanismo para retirar o lacre das cartas; o canivete alentejano, de lâmina alta, para andar sempre afiado; a navalha bandido, que aparece num livro sobre o estripador de Lisboa como arma do crime; o canivete de marinheiro, sem bico, para não furar o bote, mas com acessório para desatar cordas. Mesmo hoje, "quem tem um canivete safa-se melhor", garante o engenheiro mecânico, filho, neto e bisneto de artesãos da cutelaria, que se dedica à produção de navalhas, facas e espadas de autor por métodos manuais e tradicionais na oficina Lombo do Ferreiro, na aldeia de Relvas, freguesia de Santa Catarina e concelho de Caldas da Rainha, onde a família está instalada há várias gerações, sempre no mesmo ofício.

Os clientes são chefs de cozinha, coleccionadores, caçadores e pessoas que estão preparadas para tudo. Até para o fim do mundo. Segundo Carlos Norte, o canivete "voltou a usar-se como ferramenta essencial, se existir uma catástrofe" e está a regressar "a moda do gentleman".

A muitos apaixonados pela magia da forja, interessam as réplicas de armas antigas: a espada dos templários, a sax viking, a gladius romana, a adaga medieval para desferir o golpe de misericórdia no campo de batalha e a icónica falcata, de raiz céltica, provavelmente utilizada por Viriato para defender a Lusitânia da invasão romana, com ponto de equilíbrio muito à frente, lâmina curta, pesada, escultura de água ou cavalo no cabo, perfeita para a luta corpo a corpo. Todas estas já ganharam forma no ateliê de Carlos Norte, com site em lojadasfacas.pt, que vai buscar o nome, Lombo do Ferreiro, ao sítio arqueológico do período romano e Idade Média, no concelho de Alcobaça, que se julga ligado à actividade metalúrgica.

 [LER_MAIS] 

Na aldeia de Relvas não faltaram, até meados do século XX, artesãos da cutelaria: eram dezenas, cenário muito diferente do que se verifica hoje, tanto ali, como na freguesia vizinha da Benedita. "O artesanato praticamente morreu aqui, há um ou dois artesãos velhotes", explica Carlos Norte. "Nesta zona que tem mil e tal pessoas a trabalhar em cutelaria, se calhar vai encontrar três ou quatro que sabem fazer uma faca do princípio ao fim".

Paradoxalmente, a cutelaria de autor tem cada vez mais procura e o mercado externo paga bem – centenas de euros – por modelos artesanais. O segredo está em elevar a arte ao detalhe da joalharia: os melhores aços, as madeiras mais nobres, os acabamentos mais originais, numa combinação de qualidade e durabilidade, com o objectivo de criar peças únicas, que espelham o carácter de quem as faz e de quem as compra.

As origens da cutelaria nas freguesias de Santa Catarina e Benedita remontam pelo menos ao século XVIII e o clusterindustrial na região é actualmente o quinto maior do sector na Europa, com índices de exportação superiores a 80 por cento.
 

Caneças, o mais português dos canivetes
Corneto, relvas, cuchila, cabritera, bandido: todos canivetes típicos de Portugal, repetidos ao longo de séculos no calor da forja. Neste caso, o cliente é um coleccionador particular, português, actualmente a residir em Itália. Vai pagar 250 euros pelo canivete caneças produzido por métodos artesanais na oficina Lombo do Ferreiro – lâmina em aço damasco, com 320 dobras, mola moldada a martelo e cabo em madeira de plátano estabilizada com resina. O modelo caneças é considerado o mais português dos canivetes portugueses de bolso e é também um exemplo da tradição da cutelaria na aldeia de Relvas. "Alguns historiadores dizem que o nome vem da forma, que era muito usada pelos romanos, na decoração", explica Carlos Norte.
Tópicos: carlos nortelombo do ferreiromão de obra
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