Ao longo dos anos, que resultados têm surtido as campanhas de sensibilização pela defesa dos animais?
Temos ido a várias escolas, fazemos campanhas de sensibilização mensais. Penso que já mais pessoas estejam sensibilizadas para o bem-estar animal. Vamos a jardins- de-infância, ensino básico, secundário. Mas entre jovens de 16, 17 anos, muitos não sabem o que é um microchip, uma desparasitação, ainda se pensa que uma cadela não pode ser esterilizada enquanto não parir uma vez, mitos que os pais incutem aos filhos. Nas nossas visitas às escolas, explicamos o que é um microchip, levamos um leitor de microchip, levamos sempre um animal para exemplificarmos eexplicamos os passos a dar se encontrarem um animal na rua.
Existem situações de maus-tratos marcadamente rurais?
Pombal ainda é um meio muito rural, onde ainda há muitos animais presos à corrente, para ladrar, guardar a casa e dar sinal. Há muito gato usado para matar os ratos no palheiro e nas eiras. Já se vai notando outra maneira de estar e de lidar com o animal. Embora seja muito pouco, já se ouve falar na esterilização, já se esterilizam muitos animais. Os próprios tutores [LER_MAIS]já querem esterilizar, não é só dar água e comida. E embora haja muito abandono, também já há muita gente que pede ajuda às associações ou tente por meios próprios procurar uma solução para o animal. Penso que nesta parte das esterilizações, de desparasitações, e do abandono, as pessoas já vão tendo consciência que não é só descartar o animal.
Ainda assim, continua o flagelo dos casos de abandono. A situação agrava-se durante as férias?
Ainda acontece, muito, muito. Se bem que, ultimamente, tem aumentado todo o ano. Ultimamente têm aparecido coelhos e porquinhos da Índia. Há cerca de um mês, pediram-nos uma ajuda, porque estavam dois porquinhos da Índia numa rotunda em Pombal. Agora, além do cão e gato, também os animais exóticos. O coelho bebé é muito fofinho, o porquinho é muito fofinho. Mas depois tudo dá trabalho. Tem de se cuidar.
E quais são as razões apontadas para deixar animais de companhia para trás?
Tive um bebé e já não posso ter o animal, vou emigrar, mudei de casa, a minha sogra veio viver connosco, sou alérgica, a minha filha é alérgica, o animal ladra, é muito energético ou não é muito energético….
Alguns desses cenários até poderiam ser antecipados.
Na associação, fazemos sempre uma triagem antes da adopção. Explicamos como é o animal, tentamos ver mais ou menos o que as pessoas pretendem, onde moram. Porque se vivem num apartamento não podem adoptar um cão que ladra dia e noite. Às vezes as pessoas adoptam por impulso, porque eu quero, porque eu gosto, porque eu tenho tempo. Mas depois dá trabalho. Têm de levar o cão várias vezes à rua. Desde que temos sido mais exigentes com quem adopta não tem havido tantas devoluções. Embora continue a haver. Ainda na semana passada tivemos o caso de um cão que esteve sete dias em casa da pessoa, porque queria ir à rua e estava sempre a arranhar na porta. A pessoa achou que não tinha o tempo que o cão precisava. Nós avisámos. Atenção, uma pessoa sozinha tem a sua rotina e o cão vai mudar toda a logística. Insistia, “eu quero um cão”, lá foi o cão e sete dias depois voltou. Tem de ser uma escolha sempre muito ponderada. E também não adoptar porque o filho quer. Atenção que o filho gosta na primeira semana, depois quem vai tratar do animal é o adulto, salvo raras excepções.
Os animais mais velhos são os mais “descartáveis”?
Sim, animais velhos e debilitados. E são animais que nunca serão adoptados. Excepto, um ou outro.
E que alternativas existem para quem vai de férias e não tem mesmo com quem os deixar os animais de estimação?
Já existem várias alternativas. Uma delas, que está a aparecer muito, é o pet-sitting. Muitas pessoas ou porque trabalham por turnos, ou porque estão desempregadas, ou porque têm um tempinho, vão a casas particulares tratar dos animais, levá-los a passear. Em vários sítios também já há hotéis, onde se pode deixar os animais. Portanto, há soluções. O problema é que as pessoas não querem pagar para ter essas soluções. Recorrem muito às associações, perguntam se podemos guardar os animais. Temos muita gente a perguntar na altura das férias. No nosso caso, não temos essa valência, porque não estamos o dia todo no abrigo e guardar um animal de uma pessoa é uma responsabilidade.
A lei tem-se modificado para proteger mais os animais e punir agressores?
A lei tem mudado no papel. Na prática, está exactamente tudo na mesma. Temos várias situações de negligência com os animais, das quais fazemos queixa na GNR, na PSP, seja onde for. Fazemos a denúncia e depois não há consequências. Foi há precisamente 10 anos que entrou em vigor a lei que proíbe o abate por sobrepopulação e os Centros de Recolha Oficial (CRO) ficaram sobrelotados. Não posso falar em relação aos CRO, porque é um mundo completamente à parte. É um segredo. Não temos acesso aos canis municipais. Só com visitas marcadas e a ver por fora. Estou a falar do de Pombal, mas pelo que nós falamos entre associações, penso que é muito isso. Ninguém sabe o que se passa dentro dos canis municipais. Não sei se abatem, não sei se não abatem, sei que estão sempre cheios. As pessoas que nos chegam, ligam para o canil municipal e a resposta é sempre a mesma, de que está cheio.
O que mais podem fazer as autarquias nesta matéria?
Podem ajudar realmente quem precisa e esterilizar os animais, porque eles têm verbas anuais para isso, tanto de programas, como o Capturar, Esterilizar e Devolver, e outros para pessoas carenciadas. Sei que é um trabalho que não está a ser feito. Pelo menos em Pombal. Portanto, têm de esterilizar, esterilizar, esterilizar, esterilizar.
Até porque está em causa uma questão de saúde pública.
Exactamente. Os animais reproduzem- se. Os cães formam matilhas, que depois acabam por ir às capoeiras e entram dentro das propriedades e até podem atacar. Porque se começam a reproduzir na rua e são cães selvagens. Os gatos também começam a formar colónias. Acaba por ser uma praga.
E como está a ajudar a associação? Temos muitos pedidos de ajuda para a esterilização. Só que, no mundo de milhões, umas centenas é pouco. Nós temos um programa, que é o Esterilizar, através do qual ajudamos na esterilização de alguns animais a preço muito convidativo. Fizemos um protocolo com uma clínica veterinária, de fora do concelho, que nos faz preços muito em conta. Então, todos os meses vamos a essa clínica com animais particulares para esterilizar. Cerca de 15 animais por mês.
Que apoios têm?
As associações zoófilas não são socioculturais, não têm apoio das autarquias como ranchos, touradas e futebol. Se precisamos comprar uma carrinha, ou fazer uns arranjos no abrigo, podemos pedir um apoio pontual, que é entregue ou não. A nossa carrinha avariou, tivemos de pôr um motor novo. O pedido de apoio está há dois anos a aguardar resposta da câmara. Apesar de duas décadas ao serviço da comunidade… Somos uma associação fundada em 2007, com sete voluntários presentes e outros que são pontuais, que ajudam quando precisamos de obras ou de fazer umas campanhas de angariação de ração nos supermercados. Fazemos um apelo, as pessoas também vêm. Temos um abrigo, com cerca de 30 cães. Nunca podemos ter muito mais, porque somos todas trabalhadoras. Temos os gatos em famílias de acolhimento, que nos guardam os animais até serem adoptados. Temos parceria com a clínica de fora, que nos ajuda nas esterilizações. E temos acordos nalgumas clínicas de Pombal, que fazem uma atenção a quem adopte na associação. Quando vêem animais perdidos, soltos na rua, as pessoas viram-se para nós, porque o canil não pode acolher. E nós também nem sempre damos resposta. Não temos capacidade, as mensagens que recebemos por dia e os telefonemas que recebemos por dia… É humanamente impossível acolher tudo.
O que move os voluntários da Ajudanimal?
O amor pelos animais. Querer mudar a vida destes animais. Tentar dar-lhes o melhor. Que sonho gostaria a associação de ver concretizado? Fazer melhorias no nosso abrigo. Não temos água canalizada, não temos luz eléctrica. Portanto, o nosso sonho era pôr água e luz e fazer uma estrutura onde pudéssemos também ter os gatos, que temos espalhados em várias casas e torna mais complicada a logística.
Sandra Diniz, de 52 anos, é presidente da Ajudanimal- Associação de Defesa dos Animais de Pombal, entidade fundada em 2007. Trabalhou na restauração, no comércio e, há mais de 20 anos, é técnica de acção educativa, actividade profissional que articula com o voluntariado na Ajudanimal. A paixão pelos animais toma várias horas do seu quotidiano, fora de casa mas também dentro dela, onde Sandra Diniz tem actualmente três gatos, um cão, uma iguana e seis peixes. A dedicação aos bichos é de resto transversal às várias voluntárias da Ajudaminal, que não raras vezes acabam por acolher os animais mais debilitados, que dificilmente seriam escolhidos para adopção, explica a presidente. O apoio da família é essencial para manter uma actividade tão exigente, reconhece Sandra Diniz.










