Diz a crítica que a série Adolescência é um murro no estômago. Até que ponto esta produção se aproxima da realidade?
Acho que é um murro no estômago para quem tem andado distraído. Para mim, que ando a trabalhar estes temas da utilização da internet por crianças e jovens desde 2003 – portanto há mais de 20 anos – não é nada que me tenha surpreendido. Pelo contrário, até fiquei um bocado desapontado. Pensava que ia aprender alguma coisa de novo com a série, de tanto barulho que se tinha feito à volta dela. É algo para o qual nós temos alertado no âmbito do projecto Agarrados à Net, desde 2021. Nós temos uma sessão que se chama Pais Digitais, pela Parentalidade Digital Positiva, e nessa sessão perguntamos aos pais se eles sabem quais são as aplicações que os filhos usam. As mais comuns, eles sabem. Mais do que isso, começam a não saber. Vai ficando um nevoeiro. Depois perguntamos-lhes quem são os influenciadores que os filhos seguem. E eles são capazes de conhecer um ou outro pelo nome. Quando lhes perguntamos que ideias é que promovem, aí não sabem de todo. E essa é uma realidade com que nós nos vimos confrontando. [LER_MAIS]Isso a série espelha bem, que é um alheamento dos pais relativamente à vida digital dos filhos e que pode levar a situações limite, conforme as que são ilustradas na série. A mensagem essencial da série é que, se nós não acompanharmos os nossos filhos na utilização que eles fazem da internet, não vamos ser nós a passar-lhes os nossos valores, vai ser a internet a fazê-lo, naquilo que ela tem de melhor e naquilo que tem de pior. Nesse sentido, acho que a série é um excelente alerta para a necessidade de os pais acompanharem os filhos. E sim, ela reflecte uma realidade. Agora, nós não podemos é tomar a árvore pela floresta. Felizmente não é toda assim. Não podemos dizer que todas as crianças funcionam assim. Importa estarmos atentos.
Em Loures, uma adolescente foi violada e filmada por três jovens, que colocaram o vídeo na internet. Que comentários lhe merece esta situação?
É uma barbaridade. Dados recentes da Polícia Judiciária indicam que a criminalidade sexual está a crescer. Dados recentes dizem também que a Associação Portuguesa de Apoio à Vítima tem recebido um número crescente de situações de abuso sexual, nas quais os agressores são crianças e jovens. Essa é uma realidade para a qual nós temos que estar atentos e para a qual nós também temos estado a sensibilizar, num outro programa que trabalhamos no âmbito do projecto Agarrados à Net, que aborda a violência sexual baseada em imagens, aliciamento sexual, etc. Recentemente, participámos como oradores num evento promovido pela International Centers for Missing and Exploited Children, uma organização internacional que trabalha as temáticas da violência, do abuso sexual e da exploração sexual de crianças. Estas temáticas vão desde o aliciamento, passando pelo sexting, que depois muitas vezes resulta na partilha não consentida de imagens íntimas, podendo inclusivamente chegar às situações de coacção e extorsão através da internet. E muitas vezes, quando esses contactos se tornam presenciais, podem resultar mesmo em situações de abuso sexual e de violação, como foi o caso. A questão que se coloca é começarmos a ter penas mais pesadas para este tipo de crime.
Apoiar os autores e subscrever conteúdos
Isto é material de primeira qualidade. Subscreva para ler o artigo completo.









