
Aterrível tempestade que se abateu sobre Leiria aconteceu há mais de 7 meses. Nesse período vivemos desde a emergência do primeiro momento, o drama humano, a entreajuda, a incredulidade com a resposta nacional, a capacidade de recuperação, o drama económico, a lenta tentativa de voltar à normalidade (para quem é da região é bem claro que não há normalidade, baste passar pelos telhados caídos, a floresta derrubada, as empresas ainda em reconstrução, os pavilhões em ruínas). Mas o mundo tem memória curta, há mais uma guerra, outra crise económica, o teatro político vindo de alguns partidos da bancada (nunca mais vi carrinhas com água em Leiria).
O Governo apresentou a Bruxelas prejuízos superiores a 5,3 mil milhões de euros. O adiantamento do Fundo de Solidariedade, em julho, foi de 65 milhões. Soubemos esta semana que cerca de cem empresas da região, sobretudo de Leiria e da Marinha Grande, têm candidaturas elegíveis à Linha Reindustrializar que não vão receber nada, porque a verba esgotou. Para quem reconstruiu o pavilhão com o que tinha na conta e um empréstimo ao balcão, ser rejeitado ou ser elegível sem verba dá no mesmo (ou pior, alimenta a descrença). E o grosso do apoio foi crédito. Funciona nos primeiros meses e deixa de funcionar em 2027, quando começam as amortizações e a faturação ainda não recuperou.
Estamos a transformar um choque de uma noite numa dívida de cinco anos. Não é verdade que Bruxelas não permita outra coisa, as regras europeias permitem compensar até à totalidade do prejuízo. Na floresta, ficaram no chão mais de 2 milhões de m3 de pinho, cerca de metade do que a indústria nacional consome num ano, e a portaria dos parques de armazenamento temporário só saiu 5 meses depois. Vendeu-se mal, e o que sobrou continua no chão à espera do próximo verão. Não é justo dizer que nada funcionou.
A maior parte das empresas reabriu sem esperar por decisão nenhuma, com meios próprios, fornecedores a emprestarem equipamento uns aos outros e gente a trabalhar em pavilhões meios destapados. Foi essa a resposta rápida, e não veio de Lisboa. O que preocupa mesmo não são os telhados, esses arranjam-se. É a concentração industrial que demorou setenta anos a formar-se, moldes, plásticos, vidro, fornecedores que se conhecem, engenheiros formados aqui que ficaram aqui, clientes que aterram em Lisboa e conduzem até à Marinha Grande sem GPS.
Os ecossistemas não se degradam devagar. Aguentam, aguentam, e depois um fornecedor fecha, dois engenheiros mudam-se, um cliente encontra alternativa na Polónia e a rede perde densidade de vez. Não há linha de crédito que reponha confiança acumulada. Não peço milagres para o Orçamento de Estado em outubro. Peço 5 medidas. Reforçar a Linha Reindustrializar e pagar a quem já foi declarado elegível.
Converter parte do crédito em apoio a fundo perdido, condicionado ao emprego. Prolongar as carências até 2028. Alargar o reporte de prejuízos fiscais, porque um benefício em IRC não vale nada a quem não tem lucro para deduzir. E abrir uma linha de capitalização, com o Banco Português de Fomento a entrar no capital em vez de emprestar mais, porque o que falta a estas empresas é capital próprio. A tempestade durou uma noite e foi inevitável, a resposta vai em 7 meses e é feita de escolhas (como as de outubro).






