Em 1974, com pouco mais de 30 anos, foi vereador da primeira Comissão Administrativa Municipal da democracia em Pombal. Como foi que o convidaram?
Na altura, quem mandava no concelho de Pombal, tal como hoje, eram as pessoas que habitavam a então vila. Não ligavam nada ao pessoal das outras freguesias. Em 1974, Manuel Pimentel, o presidente da comissão administrativa municipal, tinha uma visão alargada do território, devido ao facto de ser solicitador o que lhe dava contacto com as freguesias. Dos elementos dessa comissão sou o único que está vivo. Fui convidado porque o Pimentel escolheu pessoas de tendências políticas várias, para a sua equipa. Por exemplo, o Vaz de Morais, que sempre foi mais social-democrata, ou o Orlando Cordeiro, que era advogado e foi o primeiro presidente da Caixa Agrícola de Pombal, que era um homem de esquerda muito equilibrado.
Num concelho rural, acabado de sair do Estado Novo, quais eram as maiores necessidades?
Após a revolução do 25 de Abril, o povo começou todo a solicitar coisas. Uns era caminhos, outros queriam electricidade. Lembro-me de familiares meus que iam ter comigo e me diziam: “precisamos de luz” e eu respondia sempre: “vou tratar disso”, mesmo sabendo que não podíamos tratar… Éramos muito solicitados. Eu, que estava ligado ao ensino, ia ver as escolas e os professores diziam “precisamos disto, precisamos daquilo”. Quem pedia mais não eram os habitantes da vila de Pombal – esses tinham praticamente tudo -, mas as freguesias que, ainda hoje, têm uma carga de ruralidade muito significativa. Precisavam de tudo. Não havia água canalizada, não havia luz, não havia esgotos, não havia nada. E o que é que podíamos fazer? Só, dizer “vamos tratar disso, vamos tratar disso”. Não tínhamos poder executivo e só tínhamos verba para gerir os serviços e as despesas correntes da câmara. O que fazíamos de mais significativo era explicar ao público o que era o 25 de Abril. As freguesias do concelho, com todo o respeito, eram essencialmente conservadoras. Tivemos de lhes explicar o que era a liberdade e a democracia. É curioso como foram as pessoas das freguesias e não as da vila que perceberam isso mais rapidamente. Não tinham nada, mas começaram a reivindicar caminhos e electrificação. A grande dinâmica da comissão foi politizar e explicar que, com a revolução, não eram os comunistas que aí vinham, porque havia a ideia de que os comunistas iam tomar conta de tudo. Escrevi um editorial no jornal com o título A Deus o Que é de Deus. À Política o Que é da Política, porque havia um padre de uma freguesia que alertava: “atenção, vêm aí os comunistas! Quem tiver dois porcos, eles levam um”.
Sei que chegou a ser director de um jornal de Pombal, na época.
O Pombal Livre. O Pimentel era o dono e eu fui escolhido como primeiro e único director. Foi uma experiência interessante. Era um jornal que tinha muita saída e vivia das vendas. Nasceu durante a comissão administrativa e era, de certa maneira, o porta-voz da mensagem e do movimento do 25 de Abril. Não havia como espalhar as notícias e a dinâmica do 25 de Abril, a não ser por meio daquele simples jornal que nós publicávamos. Durou o tempo próprio que tinha de durar, até haver as primeiras eleições autárquicas livres. Arrancou quando, um dia, o Manuel Pimentel disse-nos, com aquela voz empolgante: “vamos criar um jornal!” Ele é que deu o título… mas eu nunca gostei muito do nome. Não tínhamos ninguém para director e o nome tinha de ser aprovado pelas entidades de Lisboa, ligadas à comunicação social. Lembrei-me que tinha um diploma de jornalista, passado pela universidade de Espanha, onde estudei. Foi só um curso de aí uns oito dias, mas o meu nome foi aprovado. Havia sempre queixas e que a freguesia da Pelariga queria não sei o quê, que a freguesia do Louriçal também queria o mesmo e mais tal e tal. E eu geria o jornal e dava uma volta do ponto de vista literário àquilo que as pessoas escreviam. Afinava os textos e dava-lhes um tom mais jornalístico. Os meus editoriais sobre a realidade local, enquadrados pelo espírito do 25 de Abril, ganharam fama e começaram a ser publicados num diário de Lisboa vespertino. Dava-me um gozo danado.
Este ano cumprem-se 50 anos sobre as primeiras eleições autárquicas livres. Que balanço faz do poder local democrático?
Falta cumprir ainda muita coisa a nível dos meios rurais, principalmente. Vejo isso em Pombal, onde a cidade se desenvolveu muito, mas as freguesias desenvolveram-se pouco. Terras ainda sem água e sem saneamento, que são necessidades básicas. Isso ficou por cumprir tal como um certo espírito de politização das pessoas. Os munícipes ainda têm de ir à câmara pedir. Não! Tem de ser a câmara a ir às terras a perguntar o que precisam. Houve muitas coisas que melhoraram e melhoraram muito. Em Pombal, por exemplo, aquele rapaz – que foi, para mim, o melhor presidente da câmara -, o Guilherme Santos, foi talvez o que mais contactou com as pessoas. Os outros também criaram uma certa dinâmica, mas sempre à volta do centro Pombal-cidade. O 25 de Abril, acho que se cumpriu à volta de 50% e ainda há outros 50% por cumprir.
Foi por isso que, aos 82 anos, se candidatou à Assembleia Municipal, pelos independentes?
Tenho agora 83 feitos e já sou um veterano nestas coisas. Nos concelhos, enquanto a politiquice não acabar, não se vai a lado algum. Portanto, quando os independentes me convidaram, disse sim, para defender a nossa terra. Prefiro ter um presidente da minha terra, que conheço e que conhece os meios rurais, que vá lutar. Porque o poder local tem de ser poder local. Os eleitores têm de escolher os melhores da terra e os melhores do concelho. E era essa filosofia que também estava subjacente na comissão administrativa em 1974. Éramos de vários quadrantes políticos e éramos aqueles que se considerava serem os melhores, os mais conhecedores da situação real. Hoje, o poder local está muito misturado e muito subordinado ao central. Temos de ir buscar as melhores pessoas seja a que partidos for, desde que sejam competentes. No futuro, à medida que esta juventude avança e se cansa da partidarite, acredito que as pessoas competentes, esta gente nova, vai propor-se, independentemente dos partidos. Atenção que “independente” não é deixar de ser político. Ouço na rádio e na televisão, pessoas que dizem “eu não sou político”, mas somos todos políticos, no sentido grego da palavra! Na Grécia antiga, político era aquele que defendia a sua polis, a sua cidade e a sua comunidade. Podemos é não ser partidários.
O reaparecimento de partidos que defendem o extremismo em vez da ponderação e moderação preocupa-o?
Olhando para a realidade do País, concluo que não somos imunes ao que se passa no resto do mundo. As pessoas estão cansadas destes partidos simples. Os problemas não são resolvidos e aparece o contrapoder, a extrema-direita ou a extrema-esquerda. A extrema-direita, em especial, aproveita este cansaço do público, e as pessoas, sociologicamente, precisam de alguém que as ouça. Quem tem oratória leva os mais ingénuos e os mais desprotegidos. Somos o resultado, de certa maneira, do que se passa na Europa. Há uma extrema-direita mais radical, que usa a política do bota-abaixo. E a política do bota-abaixo não leva a lado algum, mas capta os indecisos e aqueles que não viram as suas necessidades minimamente satisfeitas. Com o custo de vida a subir, isto é um chamariz para os adeptos, prosélitos das carências. O sistema de direita, principalmente, vai impor-se e vai impor-se, porque há muitos, muitos, muitos, que têm muitas saudades de um Salazar. A Assembleia da República, é um pagode onde todos se atacam uns aos outros. E o Zé Povinho está a assistir ao pagode e a dizer “o que falta aí é um Salazar para impor o respeitinho”, mas os causadores são aqueles que menos respeitam. Há uma certa incongruência nisto e quem está no poder tem de fazer a chamada pedagogia do poder, em função do povo. A Assembleia da República, ultimamente, tem feito um mau serviço à nação no sentido de não haver equilíbrio. Aquilo é uma feira das vaidades, o povo perde o respeito e a extrema-direita aproveita essas coisas. Defendo que só devemos dar poder pela capacidade das pessoas para exercer essa pedagogia.
É professor catedrático na Universidade de Aveiro e trabalhou em tecnologias educativas e didáctica, com colaborações em Berlim e no Brasil. Qual foi o trabalho que mais o marcou?
Fui convidado para a Universidade de Aveiro, no seu arranque, nos anos 80. Fui dos primeiros no meu departamento. No dia em que lá entrei, disse: “estou aqui para trabalhar!”. No primeiro ano trabalhei muito, que nem um galego. Tinha um bom currículo e formação em psicologia pedagógica, e percebi que aquele era o meu lugar. No segundo ano, disse ao reitor: “vou embora, a não ser que me arranje uma bolsa para ir fazer doutoramento”. E fui fazê-lo para a Universidade de Poitiers, em França, em ciências nas áreas das tecnologias. Depois, voltei e criei o Departamento de Didáctica e Tecnologia Educativa; as tecnologias aplicadas à educação. Isso marcou-me. Hoje, o que faria? Alguns dos meus assistentes fizeram o doutoramento na área da inteligência artificial ao serviço da pedagogia. Portanto, seria isso que faria, hoje. Há muito a fazer na área da IA aplicada ao ensino. Toda a época teve as suas tecnologias. Sou um académico e sou crítico daquilo que está mal no ensino superior, mas sou um apaixonado pela vida académica.
O que está mal no ensino superior?
Para já, não me parece bem esta ideia de criar um país só de doutores e de engenheiros, com uma universidade em cada canto. Isso vai fazer com que a qualidade do ensino baixe, porque não há investigadores suficientes para um ensino e investigação rigorosos. À nossa volta, há uma universidade em Coimbra, com um pólo na Figueira. Há uma universidade em Leiria, há em Tomar, há em Santarém… Acho que se está a criar aquilo que o Brasil fez há uns anos. O Brasil tem imensas universidades, nomeadamente, particulares, e isso não se reflectiu no desenvolvimento do país, nem na qualidade dos seus licenciados. Nós queremos licenciados, doutorados, pessoas com qualidade e não a massificação. Porque a massificação impele cada instituição a fazer tudo para apanhar mais alunos, porque o financiamento é feito com o número de estudantes. O País precisa de muitos técnicos, técnicos intermédios de várias áreas, da agricultura, da construção civil e temos doutores a mais. Por que estamos a formar engenheiros que vão ganhar ordenado mínimo numa caixa de um supermercado? Não sou contra a criação da Universidade de Leiria Oeste. Essa até era a ideia do presidente da Comissão Instaladora do Politécnico de Leiria, Pereira de Melo, da Universidade de Aveiro, engenheiro de Informática e Telecomunicações. Ele via que podia nascer ali uma universidade que respondesse às necessidades locais, mas que não formasse só doutores e engenheiros. Quis desenvolver um “politécnico universitário”. A Universidade de Leiria e Oeste pode fazer coisas extraordinárias e, talvez das novas universidades, seja aquela que eu aprovaria, porque tem uma extensão muito grande e tem capacidades económicas e sociológicas interessantes. Tem o mar, tem a serra e tem dinheiro e uma ligação à ciência e tecnologia. É capaz de ajudar a desenvolver as indústrias locais e tem um reitor dinâmico.
O professor que ajudou a desenhar a Guia












