Que mensagem veio deixar à população da Marinha Grande?
Este encontro surgiu a convite do movimento Gente que Brinca e da Associação Cultural e Recreativa da Comeira. A proposta inicial era fazer uma comunicação sobre a importância do brincar e o seu papel como elemento de união entre pessoas de diferentes idades e contextos. O brincar cria pequenas comunidades e tem impacto tanto no desenvolvimento e bem-estar das crianças como nas relações entre adultos e nas dinâmicas intergeracionais. Existe na Marinha Grande a vontade de criar um movimento que una a comunidade a partir do brincar e eu achei a ideia muito relevante, sobretudo porque, embora todos digam que o brincar é importante, nem sempre isso se traduz em acções concretas. Projectos comunitários como este ajudam a tirar o brincar da invisibilidade e a colocá-lo no centro das prioridades locais. Enquanto presidente da Associação Portuguesa pelo Direito a Brincar (IPA Portugal), é fundamental conhecer estes movimentos e apoiar a criação de redes locais que reforcem o brincar nas comunidades. Estes processos ajudam a sensibilizar autarquias e entidades públicas e podem influenciar políticas locais. Há já alguns municípios com políticas para a promoção do brincar, mas ainda de forma incipiente. Movimentos de baixo para cima são essenciais para reforçar essa transformação. Este era o enquadramento inicial. Entretanto, a tempestade Kristin trouxe um novo desafio: como o brincar pode ser também uma ferramenta terapêutica e ajudar crianças e comunidades a reorganizarem-se depois de um evento traumático.
A tempestade destruiu escolas, espaços públicos e deixou casas sem electricidade e comunicações. Que impacto imediato e futuro isto pode ter no bem-estar das crianças?
Em situações de crise, as necessidades básicas mais urgentes são naturalmente priorizadas. Mas frequentemente o brincar é tratado como algo secundário e não deveria ser. Em contextos adversos, o brincar é tão fundamental como comer, dormir ou ter abrigo. Há uma necessidade básica de desenvolvimento e bem-estar. Quando espaços e rotinas são afectados, as oportunidades para brincar diminuem drasticamente. No entanto, é precisamente nestes momentos que o brincar deve ser visto como prioridade, porque contribui para a recuperação emocional e para a estabilidade das criançaas e da própria comunidade.
Em casos de emergência, como o vivido na nossa região, em que muitas famílias ficaram privadas de necessidades básicas, como pode o brincar ajudar a gerar equilíbrio emocional?
O brincar não depende apenas de brinquedos ou tecnologia. As crianças brincam com quase tudo: caixas, tecidos, almofadas, cadeiras. Em casa, com um olhar adulto mais atento e permissivo, existem inúmeras oportunidades de brincar.
Na pandemia vimos isso claramente: com materiais simples, as crianças criavam abrigos, esconderijos, cabanas. Estes pequenos momentos lúdicos são essenciais porque oferecem prazer imediato e contribuem para o bem-estar emocional. O desafio é permitir que a casa se reorganize temporariamente para dar espaço ao brincar. O que parece desorganização para o adulto é, muitas vezes, a forma que a criança encontra para reorganizar internamente o mundo, torná-lo menos assustador e mais compreensível.
A criança procura prazer ao brincar e esse prazer é vital para regular emoções e recuperar equilíbrio. Se o espaço doméstico acolher isso, também os adultos beneficiarão dessa energia mais leve e criativa.
Que papel podem ter autarquias e comunidades na restauração dessa sensação de normalidade?
O papel das comunidades, famílias, escolas, associações, é garantir que as crianças continuam a ter oportunidades de brincar. É através do brincar que elas tentam compreender o que aconteceu e começam a recuperar do impacto emocional, mesmo quando não se trata de um trauma profundo. Por isso, as escolas e organizações locais devem criar as condições relacionais materiais e humanas possíveis para as crianças brincarem e estarem bem, encontrando modos e formas de brincar auto-dirigidos e que lhes sejam mais significativos e mais valorizados por estas. Este cuidado é essencial, e ainda mais nestes momentos.
Mesmo em situação de emergência, faz sentido criar espaços temporários para acolher crianças e garantir o direito a brincar?
Sim, se já fazia sentido mesmo antes da tempestade, agora, ainda mais. No meio do caos, existe uma oportunidade para criar espaços de transição que funcionem como lugares de reparação colectiva e emocional. A destruição provocou, por exemplo, a queda de muitas árvores. A madeira disponível poderia ser reaproveitada para criar propostas de brincadeira naturalizadas nestes espaços temporários, melhorando também a qualidade dos espaços exteriores das escolas e da cidade.
Os estabelecimentos de ensino e espaços públicos que ficaram destruídos terão de ser reconstruídos. É de aproveitar esta oportunidade para os tornar mais amigos das crianças?
Sem dúvida. Há movimentos locais a surgir com essa visão. Recentemente, fui contactado por uma pessoa de Leiria que está a reaproveitar materiais naturais para transformar espaços escolares com o apoio da junta de freguesia. As autarquias deveriam assumir esta prioridade. Os materiais naturais disponíveis podem ajudar a corrigir o défice de oportunidades diversificadas para brincar e promover uma renaturalização temporária dos espaços. Sabemos que equipamentos padronizados e normativos limitam o repertório lúdico das crianças, enquanto materiais naturais e soltos ampliam a criatividade, o desafio e a resiliência.
Como integrar o olhar das crianças neste processo de reconstrução?
É essencial ouvir as crianças. As escolas e organizações locais podem conduzir processos participativos para recolher as suas perspectivas: sobre o que viveram e sobre como gostariam de usar os espaços para brincar. Isto cumpre o seu direito à participação, previsto na Convenção dos Direitos da Criança. A auscultação pode revelar que brincadeiras gostariam de ter e que normalmente não encontram no quotidiano. Incluir as crianças, retirá-las da invisibilidade política e ajudá-las também no processo emocional de recuperação.
Que recomendações deixaria então aos municípios que estão a preparar os planos de reconstrução?
Só com acções concretas se materializa a ideia, tantas vezes repetida, de que o brincar é fundamental. Nesse sentido, deixava quatro sugestões: recolher e reaproveitar materiais naturais (troncos, ramos, madeira) e redistribuí-los pelas escolas e espaços públicos, com o apoio das juntas de freguesia; assumir o brincar como política municipal, aproveitando este momento para iniciar acções que se mantenham no médio e longo prazo e apoiem a criação de comunidades de brincar; promover processos de auscultação com as crianças, recolhendo os seus pontos de vista sobre o impacto da crise e sobre como gostariam de usar os espaços para brincar; criar uma rede intermunicipal, especialmente entre os municípios afectados, para partilha de soluções, boas práticas e apoio mútuo.
Os adultos de hoje encaram a brincadeira de forma diferente? Ou pura e simplesmente acham que é uma perda de tempo?
Sim. O brincar é muitas vezes instrumentalizado: os adultos valorizam-no sobretudo pelo que a criança pode aprender com ele. Mas desvalorizam o brincar espontâneo, aberto e incerto, que não tem um objectivo visível. Isto está ligado ao ritmo de vida actual – acelerado e orientado para resultados e produtividade – que dificulta um ambiente relaxado, essencial para que o brincar emerja. Muitos adultos vivem tão pressionados que têm pouca disponibilidade mental para acolher a imprevisibilidade da brincadeira. Curiosamente, brincar também faz bem aos adultos: reduz stress, melhora o bem-estar e pode até beneficiar o desempenho cognitivo. Existem cidades, em Portugal e no estrangeiro, que já começam a criar espaços públicos que promovem o brincar intergeracional. Apesar de maior consciência pública, continua a haver uma incoerência entre o que os adultos dizem e o que fazem. Valoriza-se o brincar, mas não se cria tempo, espaço e permissão suficientes para que ele aconteça.
As nossas escolas, regra geral, estão preparadas para promover diferentes formas de brincar?
Regra geral, não. Apesar de bons espaços interiores, com tecnologia muito interessante, os exteriores são muitas vezes áridos, acépticos e pouco estimulantes. Os equipamentos são padronizados e, por vezes, inadequados ao desenvolvimento das crianças. Faltam materiais soltos, elementos naturais e possibilidades de risco controlado.
Além disso, há uma visão hiper-securitária: zonas onde não se pode correr, subir às árvores ou explorar. Esquecemo-nos de que crianças são pessoas e precisam de desafios para crescer. O espaço exterior deveria ser assumido no projeto pedagógico como um espaço de aprendizagem e desenvolvimento. Mas há ainda um grande caminho a percorrer, tal como nas nossas cidades, que continuam demasiado centradas no automóvel e pouco pensadas para o uso lúdico e comunitário.
E qual é a sua brincadeira preferida?
Tocar guitarra e compor canções. É uma brincadeira solitária, mas muito prazerosa. Gosto também de caminhar pela rua a observar pessoas e, claro, de estar em espaços públicos e espaços verdes com miúdos e graúdos, a apreciar a vida a acontecer de forma descontraída.
Embaixador do direito a brincar










