A crise do subprime, de 2007, e a última década e meia, marcada em Portugal, última década e meia, marcada em Portugal, primeiro pela austeridade, depois pelo crescimento económico explosivo potenciado pelo turismo, e em simultâneo, a falta de habitação e, para terminar, uma pandemia, são o cadinho perfeito para a explosão dos nacionalismos? Falta algum ingrediente para a ascensão do populismo e da extrema-direita entre nós?
Diria que falta um ingrediente essencial, em Portugal. Sempre houve aqui, por parte do público, uma procura por um movimento que fosse anti-sistema, mas não havia oferta. Não havia alguém, com talento, que fosse capaz de capitalizar o descontentamento e frustração que se traduz na questão económica, na desconfiança relativamente à democracia e à sensação de que ela não representa toda a gente, masque é representante de uma partidocracia e de corpos não eleitos, como os juízes, que não representamo povo e que, muitas vezes, tentam impor um modelo de sociedade que não tem o apoio popular. Essa desconfiança relativamente às instituições um factor importante para a erupção do populismo em Portugal. Mas aquilo que veio realmente impulsionar o populismo foi a imigração e as mudanças demográficas, sobretudo, nos últimos dez anos. A imigração está na base da reordenação actual do sistema partidário português. Muitas pessoas sentem que perderam as suas referências culturais identitárias, há a sensação de que o País já não é nosso, que os portugueses são estrangeiros na sua própria terra. Se tirarmos a questão da imigração de toda esta análise, todos os partidos populistas de direita, na Europa, perderiam importância e seriam irrelevantes. Houve mudanças demográficas profundas. Temos muitas pessoas do Brasil, do subcontinente indiano, de África e tudo isto gerou uma sensação de insegurança cultural e identitária. Não devemos ter problemas em falar disto de forma aberta, porque se não o fizermos, outros falarão fá-lo-ão de forma mais violenta. Temos de perceber qual é a raiz para toda esta comoção que está a acontecer nas nossas cidades, porque as pessoas têm o direito a serem ouvidas, relativamente ao que, para elas, está mal nas políticas de imigração.
O sistema liberal foi rasteirado pela sua abertura em acolher todos, todos, todos?
No meu livro Os Identitários, escrevi que, para os identitários, a grande divisão nem sequer é de esquerda ou direita, mas de universalismo e particularismo. O universalismo, patente no liberalismo, coloca o indivíduo à frente dos interesses da comunidade. Já o populismo põe os interesses da comunidade acima dos do indivíduo. Há aqui um choque frontal claro entre o liberalismo e o populismo. Os liberais dizem que os populistas levam à tirania das maiorias e os populistas dizem que os liberais levam à tirania das minorias. Ou seja, referem uma série de grupos, de oligarquias, organizações não-governamentais, corpos não-eleitos, media, movimentos académicos, que decidem “em nome do povo, mas, contra o povo”. Decidem a favor das minorias e não em termos de maiorias. E a questão do particularismo e universalismo está na base dessa rejeição identitária daquilo que está a acontecer na Europa. O movimento identitário, que está a crescer, quer substituir o conservadorismo pelo identitarismo, como a ideologia de fundo da direita. Esta direita, não é a direita dos nossos pais, não é a direita dos nossos avós, é uma direita mais agressiva, mais exclusivista, mais territorial. É uma direita que não é eufemística, no sentido de que identifica os problemas, diz quais são e apresenta soluções, soluções radicais. Vão à raiz daquilo que eles vêem como a “fonte do mal”, e da destruição das nações europeias. A “fonte do mal” é, para eles, o universalismo liberal que põe os Direitos Humanos acima dos direitos dos povos concretos.[LER_MAIS]
Foi essa visão que levou aos conflitos mundiais no XX.
É verdade. As democracias que saíram da Segunda Guerra Mundial são democracias constrangidas, ou seja, têm muito cuidado com demasiada soberania popular, porque têm receio do que aconteceu entre as duas grandes guerras com estes movimentos de massa. As democracias liberais, a partir da Segunda Guerra Mundial, criaram uma série de mecanismos, como os juízes do Tribunal Constitucional, como uma espécie de freio, aos excessos de soberania popular. Hoje, estamos a assistir a uma rejeição desse tipo de democracia liberal e a defesa de uma democracia mais protectora dos direitos das maiorias em vez dos das minorias. A via dinamarquesa poderá, a meu ver, ser o futuro para muitos partidos do centro, na Europa Ocidental. Costumo dar o exemplo da Dinamarca que, durante muito tempo, tinha um partido de extrema-direita muito forte e os partidos de centro tinham muitos problemas. O Partido Social Democrata dinamarquês, de centro-esquerda, começou a adoptar políticas muito restritivas na imigração. Mette Frederiksen, primeira-ministra e líder do partido, esvaziou a extrema-direita, ao pôr em prática restrições na imigração em nome da “coesão social”. Começou a placar a vinda de estrangeiros, sobretudo de fora da Europa. Passados estes anos, o partido ainda está no poder, é extremamente popular, e a extrema-direita ficou reduzida à irrelevância.
No seu livro, O Populismo Lá Fora e Cá Dentro, desmontou a ideia de que o País era um “oásis imune ao populismo”. Após 20% da população votar no Chega, caiu a máscara?
Em 2019, fui entrevistado pelo Público e disse que, se fosse ao Partido Comunista, prestaria muita atenção ao Chega. Passados estes anos, estamos a ver o que está a acontecer ao Partido Comunista. Na Europa, o Partido Comunista francês desapareceu e o Partido Socialista vai pelo mesmo caminho. E a grande razão para isso acontecer é a questão migratória. Transcende a direita e a esquerda, pois grande parte da esquerda é gente que defende as suas comunidades, é gente que quer continuar a identificar-se com a população onde vive e com as suas comunidades. Quando não são respeitados esses desejos de vivência e quando vêem que as elites de esquerda não estão a respeitar os seus desejos, o que fazem? Saltam do barco e vão para os partidos que fazem disso a grande bandeira. O Chega actualizou o populismo em Portugal. Deu-lhe novas vestes e intensificou algumas características, como a separação entre povo e elites, a divisão moral entre o bem e o mal, a política como algo transcendente que visa salvar a nação, a linguagem agressiva, a divisão entre o Portugal produtivo e aquele que não trabalha e vive de subsídios. Tudo isto existiu no século XX português. O que o Chega fez foi actualizar o populismo português e agora tem nas mãos um pequeno Ferrari. A imigração é o Ferrari do Chega. É exatamente isso que lhe permite ir aumentando a velocidade, granjeando cada vez mais apoio. O PSD está a começar a sentir isso e está a tentar parar esse Ferrari e o PS está a perder parte substancial do eleitorado seguro que tinha, por exemplo, em Lisboa, em Setúbal e no Algarve. E quem está a ganhar esse eleitorado? O Chega.
Há autarcas dos partidos de centro a usar a mesma linguagem violenta e a abordar os mesmos temas que o Chega, como vimos em Loures.
Mas causa algum espanto um político ter sucesso porque dá às pessoas aquilo que elas querem? Se as pessoas querem controlo da imigração e defesa de tradições e se há um político que diz, “eu vou fazer isso” e faz, seja lá através de que medidas seja, evidentemente que o político ganha credibilidade junto das pessoas. E não precisa de ser de direita ou de extrema-direita, pode ser de esquerda, como é o caso de Loures. Mas outras Loures e outros presidentes de câmara de Loures vão aparecer, porque é inevitável.
Impedir a imigração vai gerar um problema aos empresários que precisam de mão-obra, já que os portugueses deixaram de ter filhos.
Esse é um dos grandes argumentos dos identitários. Eles dizem que, ao longo dos séculos, tentou conquistar-se a Europa através da via militar e, hoje, ela está a ser conquistada e colonizada pela imigração maciça e pelas maternidades. É a “grande substituição”, expressão que vem do movimento identitário e por ele patrocinada, promovida e desenvolvida. Dizem estar a haver uma substituição das populações de origem europeia, por outras não europeias e que isso constitui um desastre cultural e civilizacional. E qual é a cura para os identitários? É radical. É a remigração. É o retorno organizado, pacífico e ordenado de grande parte das populações não-europeias para os seus países étnicos de origem. Quando lhe dizem isso é impossível e uma quimera. A resposta identitária é, “se houve vontade política para trazer essas populações para a Europa, é também através da vontade política que se pode organizar o seu regresso”.
Gavin Newsome, governador democrata da Califórnia e putativo candidato à presidência dos EUA, está a testar uma linguagem nas redes sociais, semelhante à do rival Trump, básica e maniqueísta, para conseguir chegar ao eleitorado. É assim que, agora, se passa a mensagem?
Os democratas dos Estados Unidos têm um problema. Junto da população masculina branca são vistos como demasiado ligados aos interesses, aos desejos e à forma feminina de ver o mundo e pouco ligados à masculinidade. Gavin Newsom está a tentar outras coisas. Criou um podcast, porque Trump foi a vários podcasts de desconhecidos na política, mas com milhões e milhões de seguidores. Foi ao Theo Vaughn, foi ao Joe Rogan e Kamala Harris foi convidada também para ir ao programa de Joe Rogan e recusou. Esta última eleição foi a eleição dos podcasts, porque o eleitorado deixou de ver comunicação social tradicional, mas escuta podcasts. Porque não são políticos, mas de todo tipo de temas e conseguem abarcar uma grande parte considerável da população mais jovem. O que sei é que Trump tem uma coisa que, na política, é muitas vezes decisiva, que é o carisma. O carisma leva à paixão, à adoração, mas também facilmente se transforma em estigma, também se transforma em ódio. Em Portugal, houve um exemplo nos anos 70 de uma figura dessas, um líder carismático, que era amado e odiado. Era o Francisco Sá Carneiro. Teve o amor e a devoção de tantos e o ódio de tantos também. Quando foi a notícia da sua morte, muita gente festejou nas ruas. Até foguetes houve.
Benfiquista e aficionado
“Sempre gostei muito de História e o meu pai tem muitos livros de História em casa. Em adolescente, sabia tudo sobre a guerra do Vietname e sobre a II Guerra Mundial. Além de, em Leiria, estarmos ao lado de um berço da nossa História, a Batalha. Temos aqui, enterrado, um dos mais conhecidos portugueses a nível mundial, Henry, the Navigator ou D. Henrique, lá fora, é uma das grandes personalidades europeias”, diz.








