
Conhecemos muito pouco dos nossos excelentes escritores do século XX (não são apenas os jovens!) que tão bons autores nos proporcionou: romancistas e poetas, poucos são reconhecidos e muitos são os esquecidos e os ignorados. Lembramos Aquilino ou Torga, mas quantas obras deles lemos? Dificilmente conhecemos José Gomes Ferreira ou Ruben A. E Carlos de Oliveira? E Jorge de Sena ou Manuel da Fonseca?
Alguns destes serão abrangidos pelo cânone, seja isso o que for, mas os textos de Ferreira de Castro foram sendo, aos poucos, injustamente apagados das antologias, das seletas, das listas para o ensino superior.
José Maria Ferreira de Castro nasceu em maio de 1898 na aldeia dos Salgueiros, freguesia de Ossela, concelho de Oliveira de Azeméis, numa família de camponeses. Perdeu o pai aos oito anos. Faz o exame do 2º grau (a 4ª classe) habilitação que mantém ao longo da vida. Numa região de tradicional fluxo migratório para o Brasil, o pequeno Zeca decidiu partir.
A 7 de Janeiro de 1911, embarcou sozinho em Leixões no vapor “Jerôme”, navio “negro e sujo”, com destino a Belém do Pará. “Tinha eu, então, 12 anos, 7 meses e 14 dias…”, diria mais tarde. É enviado para o seringal Paraíso onde trabalha arduamente e em condições desumanas durante quatro anos. Lê o que lhe aparece e escreve sem parar. Ali redigiu o seu primeiro romance, Criminoso por Ambição, publicado a expensas próprias, já em Belém. Aqui, como depois em Lisboa, aonde chega em 1919, escreve toda a espécie de textos para sobreviver e torna-se jornalista, passando por grandes dificuldades. Alcança lugar em jornais nacionais como o Século.
Em 1926 é eleito presidente do Sindicato dos Profissionais da Imprensa de Lisboa encerrado no ano seguinte dada a sua rejeição à Censura. Em 1928, decorrente da sua experiência pessoal, publica Emigrantes assumindo-se como “biógrafo das personagens que não têm lugar no mundo”. O livro tem grande saída, porém o sucesso maior tem-no com o romance A Selva, a obra lusófona com mais traduções feitas durante largos anos.
Não conseguindo lidar com a Censura imposta pelo Estado Novo deixa o jornalismo, dedica-se apenas à escrita, sempre em defesa das minorias, à emancipação dos assalariados, das mulheres, dos povos subjugados. Um verdadeiro humanista. Vendo também censuradas algumas das suas obras, dá uma volta pelo mundo de onde provêm as surpreendentes obras A Volta ao Mundo, As Maravilhas Artísticas do Mundo e A Prodigiosa Aventura do Homem através da Arte premiada esta pela Academia das Belas-Artes de Paris.
Escritor dum país periférico e isolado, sem influência nem projeção internacional, Ferreira de Castro foi, durante décadas, o escritor português mais traduzido, publicado na maior parte das línguas cultas europeias e em grandes editoras. Proposto para o Nobel da Literatura em 1951 e em 1968, desta vez a par de Jorge Amado, recebeu o Prémio Águia de Ouro de Festival do Livro de Nice, em 1970. Como é que um escritor destes é apagado do cânone nacional?












