O que muda na vida da mulher com a chegada da menopausa?
Depende da fase de vida profissional e familiar em que a mulher também está. Porque se coincide com a saída dos filhos de casa, com o ninho vazio, a pessoa está mais isolada, mais sozinha, e às vezes aí potencia alguma ansiedade. Mas há mulheres que nós vemos hoje em dia em cargos de liderança, tanto no nosso País como fora, e que podemos ver, pela sua idade, que estão em menopausa. O que quer dizer é que a menopausa é uma pausa de facto, mas pode ser uma pausa para nós também pensarmos no que vamos fazer com o resto da nossa vida ou no que é que já fizemos com o passado. É um marco como a adolescência. Ou seja, nós temos um ciclo de vida hormonal. Primeiro a adolescência e temos de nos adaptar a essa nova situação. As hormonas estão todas em ebulição. Depois temos a fase da idade fértil, que é uma fase hormonal teoricamente mais estável, mas depois quando somos mães, temos outra vez outra alteração hormonal. E a fase da menopausa, às vezes por volta dos 48 anos, a mulher tem uma alteração hormonal, como na adolescência. A menopausa é dos 45 aos 55, em média 52 na nossa população. E vemos ali, por volta dos 48 anos, muitas mulheres que se apaixonam até por aquele colega que achavam que era horrível e de repente vira príncipe e depois, passados dois anos, se não for menos, seis meses a dois anos, vira outra vez um sapo. Eu penso que a menopausa é uma pausa para nós também pensarmos no que fizemos nos dois terços de vida anterior e no que poderemos fazer agora para sermos ainda mais felizes. De facto há uma alteração hormonal, mas a mulher não é só hormonas, o cérebro tem um papel extremamente importante na vida das mulheres em menopausa. Agora, o que eu penso é que a menopausa é uma peça de um puzzle, que é o envelhecimento. Não é tudo a menopausa. Os homens também passam por algum envelhecimento. Embora não tenham alterações hormonais, até podem ter muitos afrontamentos e tudo, geralmente não tão súbitos como nos das mulheres, a não ser aqueles que estejam a fazer alguma medicação para a próstata.[LER_MAIS]
A menopausa vai dando sinais da sua chegada?
Nem sempre, mas pode dar alterações do ciclo. Pode fazer ciclos ou mais longos ou mais pequenos. A média é 28 dias, mas podem passar a 21 ou menos, ou então, de vez em quando, não menstruar. Afrontamentos, irritabilidade, sono fraccionado, dificuldade de concentração, alteração da memória. Vamos a ver tudo, parece que o prazo de validade das mulheres acaba com a menopausa. E eu acho que é isso que temos de ter em atenção, porque já há mesmo empresas que questionam se as mulheres em menopausa têm a mesma capacidade que as outras. A prova que têm é que a nível mundial, estão em grandes cargos de liderança. Essas mulheres estão em menopausa e mantêm as mesmas capacidades do que as outras. Também a tecnologia evoluiu imenso em todas as áreas. A esperança média de vida em 1800 era de 48 anos e hoje é cerca de 83 para as mulheres. Há muitas terapêuticas, hormonais ou não hormonais, como suplementos e até algumas coisas técnicas, tecnologia que ajuda as mulheres até na área da sexualidade.
De que forma afecta a sexualidade da mulher?
Afecta em várias áreas. O desejo pode estar alterado, mas muitas vezes não está só na menopausa. Está em relações de longa duração e está nas mulheres que têm filhos, pelo cansaço. Mas pode alterar o desejo, porque pode alterar também a auto-estima e a pessoa pode não se sentir tão confortável com o corpo que tem. Altera porque pode dar secura vaginal. E por isso é obrigatório fazer cosmética vulvar, como se faz facial. Usar cremes, porque a vulva, a entrada da vagina, é pele. E a mucosa também desidrata e depois com a penetração dói e até pode fazer uns golpezinhos, umas fissuras, depois até tem alguma sintomatologia urinária, não é infecção urinária, é só por secura vaginal. E depois há outra coisa. Chegar ao orgasmo pode demorar algum tempo. A indústria da sexualidade tem tido sempre uma grande investigação na área masculina, mas ainda não se conseguiu descobrir nenhum comprimido para as mulheres. Mas a indústria dos brinquedos tem, de facto, conseguido ultimamente desenvolver-se muito mais na área feminina do que na masculina. Defendo a sexualidade híbrida, que além de contacto físico tem energia. Podem ser pilhas ou USB. O objectivo é que o orgasmo não demore muito tempo, porque as pessoas chegam ao fim do dia e às vezes não lhes apetece só de pensarem que demoram imenso tempo para atingir o orgasmo. Por isso, festinhas, beijinhos e depois um aparelho de ondas sónicas que fazem vibrar um bocadinho o clitóris. Também existe de vácuo, mas às vezes destrói um pouco as terminações. E com o uso, depois a pessoa não gosta de ter contacto com o parceiro. Não há nenhum homem que consiga competir com o aparelho. E depois, continuar com o contacto físico para chegar ao orgasmo sozinha ou com o parceiro, mas sem aparelho. O aparelho deve ser usado só a meio, para acelerar a excitação.
Entre tantas mudanças, como se mantém a auto-estima?
Ninguém está feliz com o corpo em idade nenhuma, não é? E ninguém aos 70 tem 20. Mas pode ter uma atitude chave. Intelectualmente também pode ter outra postura perante a vida. Costumo dizer que as vezes é tudo uma questão de iluminação. E não é só isso. Se a pessoa conseguir ter humor, boa disposição, se não estiver sempre a queixar-se. O marido não é analgésico. Quando lhe dói alguma coisa, toma um comprimido. A menopausa não é o fim. É só uma outra fase da vida. Com outras partes também positivas. E hoje, se a pessoa tiver sintomatologia, só tem de procurar o médico e fazer a terapêutica adequada. Porque não há necessidade de ter sintomas. Há terapêuticas hormonais, há suplementos, há lasers, luz LED, ultrassons, imensas coisas.
É uma viagem solitária ou já existe alguma compreensão por parte dos companheiros?
Eu acho que hoje em dia existe compreensão, porque há divulgação na comunicação social. Mas existe também uma parte muito negativa, que é a imagem da coitadinha. Não é isso que nós queremos. Porque os homens podem tomar medicamentos para a próstata e nunca os vemos no perfil dos coitadinhos. A mulher na menopausa só está numa fase, como a grávida está numa fase, a adolescente está numa fase. E como nenhuma mulher grávida é uma coitadinha, nenhuma adolescente é uma coitadinha, na menopausa também não é.
E as mulheres procuram ajuda médica para atenuar estes sintomas da menopausa ou ainda sentem vergonha?
Não sentem. E até procuram muito mais precocemente. Vão por volta dos 40 e tal anos perguntar se já estarão na menopausa, porque tiveram uma alteração do ciclo menstrual, porque tiveram um atraso e não estão grávidas. O papel da comunicação social tem sido extremamente importante para mostrar que a menopausa existe, que não é problema nenhum, é uma fase da vida como há outras. E que há terapêuticas, há imensa coisa a fazer e não há necessidade de ter sintomatologia. Nem todas as mulheres têm e algumas passam a menopausa mais ou menos tranquila. Eu, por exemplo, não tive sintomatologia. Mas uma percentagem tem alguma sintomatologia e de facto é extremamente desagradável e interfere com a qualidade de vida profissional, afectiva, social das pessoas. Mas é só procurar a ajuda adequada para se conseguir ter uma vida excelente. Se tiver receio da terapêutica hormonal, ou que haja contra-indicação, há suplementos, técnicas como a acupunctura, que também tem tido um papel extremamente importante na sintomatologia da menopausa, extremamente importante até nos afrontamentos, fazer medicação ou fazer um estilo de vida adequado para viver bem. Manter-se activa é fundamental, ter sempre uns momentos para ela própria. Todos os dias de manhã, olhar para o espelho e sorrir, fazer alongamentos sempre, por causa das dores musculares que algumas mulheres referem, fazer o exercício adequado. E não absorver tudo o que se vê online, porque o problema hoje em dia é que as pessoas não usam o cérebro para filtrar e absorvem tudo. E muitas vezes absorvem só a parte negativa. Nós vivemos numa sociedade orientada para o eternamente jovem, tudo o que é mais velho teoricamente é desactualizado. Não é como antigamente, que idade era igual a sabedoria. Agora é ao contrário. A sociedade tem mudado imenso. No tempo da Rainha Vitória, as mulheres fingiam que não tinham orgasmo, para não serem consideradas histéricas. Agora fingem que têm. Por isso, estamos numa sociedade que mudou totalmente. E nos últimos seis ou sete anos, têm-se investido imenso na parte da sexualidade feminina e na menopausa. Até aqui, tudo o que dávamos às mulheres diminuía a libido, era para planeamento familiar e o que dávamos aos homens era para aumentar o desejo sexual. Estávamos a caminhar em sentidos opostos. O que isso vai levar é cada vez aumentar mais também os divórcios.
O Serviço Nacional de Saúde tem tido respostas à altura das necessidades das mulheres nas suas diferentes fases da vida?
No geral, eu penso que responde. Há consultas de menopausa, hoje em dia mais do que antigamente, há consultas de planeamento familiar, nas diferentes fases da vida, há consultas específicas para tudo e há formações nessa área, tanto para os médicos de medicina geral e familiar, como mesmo para os das especialidades. Agora depende dos sítios onde se vai. Nalguns é mais rápido, noutros está mais atrasado, mas as consultas existem.
Como se explica que a área da Ginecologia e Obstetrícia tenham chegado a um ponto de ruptura?
Acho que é uma área muito violenta em termos físicos. Desgastante. Não só nas instituições públicas como nas privadas. Porque as pessoas são chamadas a qualquer hora do dia e da noite. Enquanto nas outras especialidades aparece uma ou outra cirurgia mais urgente, aqui não. As pessoas hoje em dia preferem ter mais vida e esta é uma especialidade de facto muito desgastante.
Maria do Céu Santo nasceu em Leiria e foi para a Nazaré ainda bebé, terra que nunca deixou de visitar.
É ginecologista obstetra no Hospital da Luz e na X Clinic.
É pós-graduada em Medicina Sexual e em Anti-envelhecimento.
Tem a competência em Sexologia Clínica pela Ordem dos Médicos. É uma das figuras fundadoras do Núcleo de Medicina Sexual da Sociedade Portuguesa de Ginecologia. É ainda autora e co-autora de vários livros e artigos e rosto conhecido da televisão, onde aborda sem tabus vários assuntos da sexualidade.









