Não há memória de a habitação na região de Leiria ter sido tão cara.
No segundo trimestre de 2026, o valor mediano das vendas de alojamentos familiares na Comunidade Intermunicipal da Região de Leiria (CIMRL) atingiu 1.665 euros/m2, segundo os dados mais recentes do Instituto Nacional de Estatística (INE).
A taxa de valorização homóloga foi de 19,6%, acima dos 18,4% do conjunto do País e dos 13,7% da média da região Centro.
No terceiro trimestre de 2025, a mediana na CIMRL era de 1.392 euros/m2, porém, no quarto trimestre, tinha subido para 1.542 euros.
Em menos de 12 meses, cada metro quadrado encareceu mais de 260 euros.
Numa habitação de 100 metros quadrados, isso representa uma diferença superior a 26 mil euros entre os Verões de 2025 e de 2026.
Mas é no concelho de Leiria que encontramos valores acima da média da CIMRL mais expressivos.
No segundo trimestre de 2026, o preço mediano neste município fixou-se em 2 073 euros/m2, quase 25% acima da média regional, com uma valorização homóloga de 13,6%.
Para Diamantino Caçador, promotor da agência ERA Marinha Grande e Nova Leiria, a explicação para a subida está sobretudo na dinâmica da cidade e aponta o desempenho económico local como motor.
“O peso principal é a procura, a própria dinâmica económica da zona de Leiria”, com destaque para o crescimento “nos empregos, na saúde e na educação, através da universidade de Leiria”.
A comparação com as restantes comunidades intermunicipais da região Centro mostra outra coisa.
As sub-regiões do interior registam preços mais baixos, com as Beiras e Serra da Estrela com 759 euros/m2 (+6,2%), Beira Baixa com 817 euros/m2 (+12,4%) e Viseu Dão Lafões com 1.075 euros/m2 (+12,6%).
Do lado oposto estão Aveiro com 1.851 euros/m2 (+16,8%) e Coimbra com 1.576 euros/m2 (+14,3%). Das três sub-regiões do litoral centro, Leiria é a única a crescer acima do ritmo nacional.
O Oeste como espelho
A CIM Oeste atingiu os 2.335 euros/m2 no segundo trimestre de 2026, com uma valorização de 24% em 12 meses.
Uma das explicações possíveis é a proximidade à Grande Lisboa, onde o valor por metro quadrado está nos 4.030 euros e à Península de Setúbal (3.069 euros/m2).
O Oeste será a escapatória das famílias que fogem dos preços da Área Metropolitana de Lisboa.
A diferença entre a CIM Oeste e a CIM Leiria é hoje de 670 euros por metro quadrado ou, fazendo as contas, mais de 67 mil euros numa habitação de 100 metros quadrados.
Ainda de acordo com o INE, no segundo trimestre de 2026, o número de transacções na CIMRL caiu 12,4% face a segundo trimestre de 2025, para 1.006 operações.
No município, a queda foi de 12,5%, com 447 transacções registadas.
Diamantino Caçador rejeita que este dado signifique “uma paralisia”.
“Não há um bloqueio. Há menos gente capaz de comprar. Se há menos gente capaz de comprar, há menos transações”, explica.
A subida dos preços reduz a capacidade de financiamento das famílias e os proprietários de imóveis usados não vendem, nem baixam preços.
A construção nova também não resolve o problema de imediato.
“As casas novas vão saindo a conta-gotas e estarão prontas daqui a um, dois ou três anos.”
A solução? Para o promotor: “construção, construção, construção, construção”.
E a pressão já se estende para lá da cidade de Leiria.
“Os preços de Leiria a subir farão com que os outros também subam. Em vez de viver em Leiria, as pessoas vão procurar a Marinha, Pombal, Porto de Mós ou a Batalha.”
Impacto da Alta Velocidade
A futura Linha de Alta Velocidade (LAV), com estação prevista na Barosa, colocará Leiria a 36 minutos de Lisboa.
A experiência de cidades espanholas servidas pelo AVE mostra que a valorização imobiliária tende a antecipar-se em cinco a dez anos à abertura da linha.
“Se as pessoas estivessem a meia hora, vinham para aqui e inflacionariam os preços do metro quadrado. Mas ainda falta muito tempo para a conclusão da LAV.”
Já o presidente da Câmara de Leiria, Gonçalo Lopes, admite que “a chegada da alta velocidade reforçará a atractividade de Leiria e poderá aumentar a pressão sobre o mercado habitacional”, mas garante uma resposta “que permita aproveitar essa oportunidade, preservando o acesso à habitação de quem aqui vive e trabalha.”
Entre as medidas em curso, explica, estão habitação pública para arrendamento acessível, mobilização de imóveis privados para subarrendamento a preços controlados, reservas de solo no PDM e o levantamento de prédios devolutos em zonas urbanas consolidadas.












