Que características definem o novo presidente da Câmara da Nazaré?
Eu sou uma pessoa de trabalho. Gosto de fazer as coisas acontecer. Como tal, esta passagem para a função pública, para o sector do Estado, não tem sido fácil para mim. Na medida em que todos os processos, procedimentos, toda a política da coisa pública cria muitas entropias. E eu não estou habituado a isso. Nesta fase inicial, tem sido um pouco como uma pista de obstáculos, onde temos que andar constantemente a transpô-los. Mas sempre com muita resiliência e com muita vontade, ultrapassando então estes obstáculos de forma a fazer as coisas acontecer.
Era este o município que esperava encontrar quando venceu as autárquicas?
Eu suspeitava que alguma coisa estivesse mal. Mas confesso que o encontrei pior do que pensava. Um dos primeiros trabalhos que nós fizemos, agora nesta fase inicial, que eu achava que era fundamental, foi uma reestruturação interna de serviços. Foi isso que fizemos durante estes primeiros meses e terminámos agora. Porque eu gosto sempre de arrumar a casa primeiro, para depois [LER_MAIS]poder partir para fora. Em termos de tudo o que eram os serviços internos da câmara, eu pensava que estavam muito mais bem estruturados. E não estavam. Tivemos um trabalho suplementar bastante grande. Mas, por outro lado, também é aquilo que eu gosto de fazer, que é reestruturar equipas, motivar, criar objectivos. E isso tem sido bastante bom para a equipa que está comigo.
Nazaré é um concelho com projecção internacional, o que também tem o reverso da medalha…
Já tive oportunidade de dizer ao primeiro-ministro que a Nazaré tem sido uma embaixadora de Portugal lá fora. Como tal, também tem de ser reconhecida dentro do nosso País. Encontro aqui uma vila com uma projecção muito grande, mas que durante os últimos anos não criou alicerces no interior para conseguir suster a projecção que tem. Temos uma falta enorme em termos de infra-estruturas, quer sejam municipais, desde logo saneamento básico, rede de águas, mas também em termos de infra- estruturas culturais. Nos últimos anos, a Nazaré teve a capacidade de trazer muitos visitantes, mas não lhes mostramos nada. A cultura nazarena nunca foi mostrada. Nós praticamente não temos um museu activo no concelho e acabamos por não ter locais que as pessoas possam visitar para conhecer a cultura local. Não só da Nazaré, mas de todo o concelho. Porque tanto Famalicão como Valado dos Frades têm potencialidades únicas em termos turísticos.
A última época balnear ficou marcada por vários episódios de banhos interditos, resultantes de poluição do mar. O que está a fazer a autarquia para que situações destas não se repitam?
Durante anos, a Nazaré não teve a capacidade de criar infra-estruturas até para garantir a qualidade de vida de quem vive cá. A Nazaré é muito procurada, quer seja durante os meses de Verão, quer seja durante o resto do ano. E não conseguiu modernizar o saneamento básico para fazer face a toda a procura que tem tido. Esse foi um problema muito grave, que criou muitos constrangimentos durante o mês de Agosto de 2025. Neste momento, já iniciámos uma obra, para garantirmos que o que sucedeu durante o ano de 2025, e que já tinha sucedido anteriormente também, não volta a acontecer. Está a ser feita uma infra-estrutura de saneamento básico, obra que se prevê estar concluída até dia 15 de Maio.
A depressão Kristin também penalizou a Nazaré e a destruição da conduta que fornece água a Fanhais chegou a causar grande preocupação.
Há cerca de uma semana, a empresa Águas de Portugal finalizou a obra na zona da Maiorga, até com bastante rapidez, também com o auxílio de Alcobaça, porque o problema também afectava directamente aquele município. Essa questão está resolvida. Mas, de todas as formas, é algo que continuamos a trabalhar. Porque durante os meses de Verão, tendo em consideração o quase quadruplicar de população, temos sempre muitos constrangimentos com o abastecimento de água. E isso é um assunto onde nós já estamos a trabalhar, juntamente com os Serviços Municipalizados da Nazaré, de forma a conseguir minimizar esse problema. Estamos a finalizar uma obra, que já vem do anterior executivo, que é o novo depósito de água na zona do Camarção, que queremos pôr operacional já nos próximos meses, talvez até ao final de Abril. Portanto, o abastecimento de água à Nazaré é algo que nos preocupa, sendo que essa situação em particular, neste momento, está resolvida.
O mercado municipal foi outra infra-estrutura danificada com a tempestade. Há data de reabertura ao público?
Contamos reabrir sexta-feira, dia 17. Foi uma obra que teve de ser feita em tempo recorde. Estamos a falar de um espaço bastante importante para a população. Muitas famílias vivem daquela actividade durante toda a semana. Em vez de criar uma estrutura maior e mais onerosa para o município, optámos pela mudança do mercado para o Centro Cultural da Nazaré, já que havia garantia de que a obra seria feita num curto prazo. Demorou menos de um mês e meio. Depois, vamos continuar com alguns melhoramentos. Era uma obra que já devia ter sido feita há muitos anos, onde a cobertura ainda era de fibrocimento, com amianto. Era uma questão de saúde pública, bastante grave. Quando aconteceu a tempestade, grande parte da estrutura ficou danificada, chamamos o delegado de saúde e foi-nos dito que tínhamos de proceder à mudança da cobertura. Foi o que fizemos. E, paralelamente a isso, aproveitámos para fazer mais alguns melhoramentos. É uma área coberta de 2.400 metros quadrados, grande. O grosso fica feito agora, mas vamos depois fazer intervenções pontuais para criar actividades e dar outra vivência ao mercado municipal.
Várias vezes advogou que o melhor para o município é negociar o abandono progressivo do Fundo de Apoio Municipal (FAM). Como é que isso se materializa?
Vamos sair do FAM, mas na minha óptica era muito prematuro que alguém, acabado de chegar a este município, sem conhecer as contas em concreto e todos os problemas que podem assolar o município, viesse fazer uma saída abrupta do FAM. Tive uma reunião com a direcção do FAM e sempre ficou em aberto a possibilidade de podermos ir negociando medidas pontuais. Por exemplo, nós fizemos uma reestruturação e criámos mais três divisões. Estamos a falar de algum aumento de custos em termos salariais. Como tal, pedimos um parecer ao FAM, explicámos como iríamos fazer, e deu parecer favorável. O FAM está aqui para trabalhar e colaborar connosco, para ir ao encontro das nossas necessidades. Temos o ano de 2026 para fazermos uma avaliação concreta às contas. Continuam a aparecer algumas situações inesperadas. O interface foi uma obra concluída em 2025, mas só da revisão de preço e de trabalhos a mais, estamos a falar de uma conta de cerca de 280 mil euros. A par disso, já soube que tem estado a ser negociado com os advogados do município o reequilíbrio financeiro e atrasos da obra, que têm a ver com o estaleiro. Portanto, com mais este valor, são cerca de mais 600 mil euros. Dava para fazer dois, se calhar. São surpresas que estão a aparecer e nós estamos a tentar entender como as vamos resolver. E achamos que não é oportuno sair do FAM até termos a situação nas mãos. Depois, então, fazemos essa saída. Em 2027, queremos um orçamento feito por nós, pensando no investimento e não apenas na despesa, que é aquilo que tem acontecido nos últimos anos.
Além do turismo, que outras áreas tem a Nazaré por desenvolver?
Estamos a pegar agora em áreas como a cultura, a educação, a saúde, a coesão social. Áreas que estão a começar a ser estruturadas. Foram criadas três divisões, que abrangem essas áreas. A Câmara da Nazaré não estava estruturada com divisões que acompanhassem esses processos. A Nazaré foi um dos primeiros concelhos a aceitar a delegação de competências relativamente à área da educação, mas não criou uma estrutura para tratar da educação. É tudo isso que nós, neste momento, estamos a começar a implementar. Temos uma obra importantíssima para fazer, e já estamos a finalizar o processo de candidatura, através da Direcção-Geral dos Estabelecimentos Escolares, uma obra fundamental para o concelho, e tem a ver com a sede de agrupamento que, neste momento, tem alunos em nove contentores. Uma escola que está ultrapassadíssima em termos de condições que tem para oferecer as alunos. O projecto que nós estamos a trabalhar já vem de 2016, para se ver o atraso que temos na área da educação. Na cultura, a Nazaré perdeu uma oportunidade enorme durante estes últimos 10 anos, de poder mostrar a cultura nazarena que é única. Neste momento, estamos a começar a criar alicerces. Temos o Museu Joaquim Manso, que está fechado há anos, que está em obras, numa série de trapalhadas, que nós estamos a resolver. Queremos abri-lo este ano, quando se completam 50 anos da sua criação. E temos a Fundação Mário Botas, que queremos activar rapidamente. E falta-nos explorar muito a parte agrícola, a área de Valado dos Frades, de Famalicão. A bem da verdade, nos últimos anos foi completamente negligenciada pelo município e é algo que queremos trabalhar muito e em parceria também com o Município de Alcobaça, que tem de ser um parceiro estratégico para nós.
E em que fase se encontra o funicular?
O funicular tem de estar concluído até dia 31 de Agosto, obrigatoriamente. Estamos a falar de uma obra do PRR, financiada a 100%. O município, neste momento, não tem capacidade financeira para a terminar sem ser via PRR. E temos instruções do Governo Central, que não vai haver prorrogação. A obra está em curso, segue a bom ritmo e os empreiteiros sabem perfeitamente que têm de dar o projecto como terminado até 31 de Agosto.
E o presidente está optimista?
Eu estou optimista. Não é o projecto que mais me agrada neste momento na Nazaré. A Nazaré tinha muitas outras prioridades neste momento, mais do que o novo funicular. De toda a forma, é algo que está em curso e, para mim, é ponto de honra que tem que estar pronto até dia 31 de Agosto, muito em virtude da questão financeira que envolve aquele projecto.
O desporto é outra actividade que merece a vossa aposta?
A Nazaré tem de continuar a fazer um forte investimento em tudo o que é desporto de praia. Nós somos e queremos continuar a ser referência no futebol de praia. Queremos uma definição por parte da Federação Portuguesa de Futebol sobre o quer fazer relativamente ao futebol de praia. É algo com o qual temos estado a insistir. Este ano vamos continuar a ter cá uma prova importantíssima a nível europeu, que é o Euro Winners. Mas depois temos também o voleibol de praia e mais uma série de desportos. Além do surf, que já é um desporto do ano inteiro. Mas no que toca ao futebol de praia, na Nazaré não se trata só de um desporto, está muito enraizado na cultura nazarena, até entre as crianças. E no Euro Winners, temos aqui 1.300 ou 1.400 atletas durante duas semanas, creio eu. O que também é bastante importante para a economia local.
Para captar mais actividades, é necessário garantir casa a quem reside no concelho. Que soluções estão a ser implementadas para criar mais habitação? Temos uma carta municipal de habitação, relativamente à qual nada foi feito nos últimos anos. O município tem neste momento alguns terrenos e o nosso grande objectivo passa por captar investidores, até locais, que possam participar com o município. E vamos dividir acções por duas áreas. Uma coisa é a construção acessível, de forma a conseguirmos ter habitação em determinadas áreas, com preços acessíveis aos nossos jovens. Outra, é a habitação social. A Nazaré tem carência de habitação social e nós já estamos a começar a trabalhar nisso e a fazer projecto. Deparámo-nos com uma situação na Câmara da Nazaré, na questão habitacional não tínhamos projecto. Portanto, achamos que 2026 vai ser extremamente importante para nós, porque, depois da estratégia que definimos, vamos lançar projectos, quer seja na parte da habitação social, quer seja na habitação a custos controlados. E vamos levar à reunião de câmara o novo pacote que tem a ver com o alojamento local. Já estamos a restringir algumas áreas em termos de alojamento local. A malha urbana em redor da Nazaré deve ser preservada e bloqueada ao alojamento local, para que projectos que se possam vir a desenvolver nessas áreas sejam efectivamente de habitação.
Empresário pouco dado ao Carnaval
Natural da Pederneira, Serafim António Louraço da Silva, de 49 anos, tem um percurso profissional dedicado ao sector das madeiras e, como empresário, participou em obras relevantes no País, como a Praça de Touros do Campo Pequeno, também fora dele, na reabilitação urbana em França, ainda obras na Suíça, Bélgica, Brasil, Moçambique e Argélia. Teve sempre grande ligação à comunidade e ao associativismo, tendo sido dirigente da Associação Recreativa Pederneirense, mas confessa não ser grande folião de Carnaval. Venceu as últimas autárquicas como independente, encabeçando a lista do PSD, recuperando a Câmara da Nazaré aos socialistas.









