
O que acontece quando as pessoas deixam de acreditar que a ordem estabelecida tem alguma coisa para lhes oferecer? A resposta está espalhada em todo o lado. Nas redes sociais, nos canais noticiosos, nas ruas a fervilhar de gente. É que os protestos, como sabemos, não têm apenas lugar em Portugal contra o custo de vida e a crise da habitação e nem sequer começaram aqui. Noutros países europeus, a indignação assumiu formas semelhantes, alimentada pelos baixos salários, anticorrupção, pela precariedade e pela sensação de que as instituições já não conseguem responder às necessidades de quem vive sob a sua autoridade.
E é neste ponto que o Cinema nos oferece uma mão. Nos explica que não estamos sozinhos e nos ajuda a compreender. Fight Club (ou Clube de Combate, em português), realizado por David Fincher, em 1999, identificou uma ferida social que continua aberta, retratando o sentimento de um sistema que promete liberdade individual, mas que oferece cada vez menos razões para se acreditar nela.
No início do filme, o protagonista surge como um homem derrotado e robótico, cuja existência carece de qualquer propósito. Apesar de cumprir as suas obrigações sociais, a sua profunda infelicidade manifesta-se numa insónia crónica que já dura há mais de seis meses. Assim, momentos antes de conhecer Tyler Durden no avião, o seu monólogo interior revela o desejo secreto de que o aparelho se despenhe. Todavia, esse encontro fortuito transforma o seu destino, pois Tyler desafia-o a libertar-se de tudo o que o mantém encurralado. E não vou avançar muito mais, apenas desvendo que eles ambos criam um Clube de Combate, onde aliam a dor física a uma forma de libertação da sociedade consumista e anestesia quotidiana.
Fincher filmava o final do século XX, mas a sua crítica não ficou presa a essa época. A promessa de que o trabalho árduo conduz à estabilidade perdeu a credibilidade para uma parte crescente da população. Ter emprego não significa necessariamente conseguir pagar uma casa. Cumprir as regras não garante mobilidade social. E a liberdade de escolher entre produtos, marcas e estilos de vida parece muito pouco convincente quando faltam as condições materiais para escolher o próprio futuro.
As manifestações interrompem a normalidade e tornam visíveis injustiças frequentemente tratadas como inevitáveis. Exige-se, muitas vezes, que os protestos sejam moderados, mas não se questiona como resolver a base.
É neste contexto que Fight Club ganha uma dimensão política que ultrapassa a crise de identidade das suas personagens. A revolta de Tyler Durden nasce de uma insatisfação real com o sistema e traduz a necessidade de romper com uma ordem que parece inquestionável. Embora o caminho que escolhe acabe por reproduzir novas formas de submissão, isso não invalida a legitimidade da revolta que lhe dá origem. Pelo contrário, lembra-nos que contestar o mundo existente é, também, abrir espaço para imaginar e construir outro. Porque recusar a resignação é, muitas vezes, o primeiro passo para transformar a realidade.












